NA EDIÇÃO DE HOJE
Editorial — Uma família brasileira que viveu vinte anos em Foz do Iguaçu foi morta num bombardeio israelense no sul do Líbano. Discutimos o que há por trás de uma guerra que segue matando civis com cobertura diplomática americana.
🇧🇷 Brasil — O Congresso derrubou o veto de Lula à dosimetria e rejeitou Jorge Messias ao STF em menos de 48 horas. Analisamos o que essas derrotas revelam sobre a correlação de forças antes de outubro — e o que o governo precisará fazer para não chegar às urnas acuado.
🇨🇳 China — Pequim bloqueou a compra da startup Manus pela Meta e reafirmou que não abrirá mão do controle sobre sua fronteira tecnológica. Mostramos por que esse episódio é mais um capítulo de uma disputa que não tem fim à vista.
🇺🇸 Estados Unidos — Trump retirou 5.000 soldados da Alemanha após o chanceler Merz dizer uma verdade que Washington não quis ouvir.
🌍 Mundo — Os Emirados Árabes saíram da Opep e Milei subiu a bordo de um porta-aviões americano. Dois episódios distintos, uma mesma lógica: Washington recompõe alianças enquanto reafirma que não tolerará dissidência no seu entorno.
EDITORIAL
Mais vítimas do “cessar-fogo” anglo-israelense

A brasileira Manal Jaafar, de 47 anos; o filho Ali Ghassan Nader, de 11 anos; e o pai do garoto, o libanês Ghassan Nader, de 57 anos. (Foto: Manal Jaafar/Arquivo Pessoal)
Desde 28 de fevereiro, quando os Estados Unidos e Israel iniciaram a Operação Fúria Épica contra o Irã, o Oriente Médio vive uma escalada sem contenção clara. O Líbano, que já havia sido arrastado para o conflito pela presença do Hezbollah — grupo apoiado por Teerã e que opera no sul do país —, tornou-se mais um front numa guerra que se alastra. Israel, que combate o Hezbollah desde a retomada das hostilidades em março, opera no sul libanês com uma lógica que torna qualquer acordo de trégua estruturalmente inútil: o cessar-fogo anunciado em 16 de abril inclui uma cláusula que reserva a Israel o direito de agir "em legítima defesa" a qualquer momento — linguagem suficientemente ampla para justificar qualquer ataque, contra qualquer alvo, a qualquer hora.
É dentro dessa lógica que Ghassan, Manal e o pequeno Ali morreram. A família havia vivido vinte anos em Foz do Iguaçu, tirado cidadania brasileira, criado filhos no Paraná — parte dos quase 10 milhões de descendentes de libaneses que fazem do Brasil um dos países com maior comunidade libanesa fora do próprio Líbano. Voltaram ao Líbano em 2010. Ali, o filho mais novo, nasceu lá — mas cresceu ouvindo histórias do Brasil e sonhando em conhecê-lo. Confiaram num acordo que existia no papel e não existia no campo. Estavam preparando um almoço quando a bomba caiu.
O resultado da violação sistemática do cessar-fogo está nos números. Desde março, o Ministério da Saúde libanês contabiliza mais de 2.600 mortos. Israel estabeleceu uma zona de 10 quilômetros a partir da fronteira, interditada à imprensa e à população, onde conduz operações de demolição — vilarejos, mosteiros, escolas, estradas. Entre os mortos, 103 são socorristas que foram a campo salvar vidas e acabaram como alvos — dado que a própria Cruz Vermelha classificou como "absolutamente inaceitável."
O Brasil condenou os ataques e defende a retirada imediata das tropas israelenses do Líbano — posição correta, que precisa ser sustentada com cada vez mais firmeza num cenário em que os EUA seguem fornecendo a cobertura diplomática que torna tudo isso possível. Ali tinha o sonho de conhecer o Brasil.
BRASIL
Derrotas de Lula no Congresso apontam para outubro

Foto: Geraldo Magela/Agência Senado
A rejeição de Jorge Messias ao STF e a derrubada do veto de Lula ao PL da dosimetria, em menos de 48 horas, sintetizaram a dinâmica que um Congresso tomado pelo centrão e pelo bolsonarismo é capaz de representar. Messias caiu no Senado após forte articulação contrária, apesar da liberação de emendas e da operação montada pelo Planalto; no dia seguinte, Câmara e Senado derrubaram o veto e mantiveram um texto que reduz penas para os envolvidos na tentativa de Golpe de Estado de 08/01/2023 e beneficia Jair Bolsonaro.
Essas derrotas no parlamento se deram em um contexto no qual o governo Lula enfrenta uma rejeição relevante. A pesquisa Genial/Quaest publicada em 15 de abril registrou 43% de aprovação e 52% de reprovação, pior marca desde julho de 2025. Isso seguramente influencia as ações de um Congresso em grande medida opositor ao executivo, que deixa de negociar com cautela e passa a testar até onde consegue empurrar o Planalto. A rejeição de Messias - com Davi Alcolumbre (UNIÃO -AP), presidente do Senado, desejando adiar para depois das eleições uma nova votação para a vaga de Luis Roberto Barroso - e a aprovação da dosimetria, portanto, são sintomas de um Executivo “nas cordas” - em sentido amplo.
Nesse contexto, a discussão da transição para o fim da escala 6x1 é reveladora. A Câmara passou a debater uma redução gradual da jornada semanal, de 44 para 40 horas até 2030, como condição para negociar uma medida sem corte salarial nem pacote de desoneração. A pauta responde a uma demanda social concreta, mas também mostra um Congresso tentando disputar a pauta com o Governo Federal à luz de um determinado interesse empresarial - em detrimento da massa trabalhadora organizada, que junto com executivo federal pleiteia uma redução imediata da carga horária sem desconto no contracheque.
Se Lula quiser reagir de verdade, vai precisar voltar a falar diretamente e com franqueza ao povo brasileiro sobre o que está em jogo, pois as derrotas ocorridas não são meramente aceitáveis. Em algum momento, o governo terá de mostrar com clareza que existe, sim, um “Congresso Inimigo do Povo”, que bloqueia ou esvazia medidas de interesse popular, e que se mostra cada vez mais à vontade para fazer frente ao executivo - como fez com a rejeição de Messias. Para além do slogan, é preciso reabrir a conexão com a sociedade - em especial por meio das redes de rádio e TV - e reconhecer, em paralelo, que a disputa pelo Legislativo (que pode renovar até ⅔ do Senado Federal) em outubro não é secundária: sem mudar a correlação de forças ali, qualquer avanço continuará frágil, provisório e facilmente desmontável.
CHINA
China intervém e impede compra da startup Manus pela Meta

Foto: reprodução
No dia 28/04/2026, a Comissão Nacional de Desenvolvimento e Reforma da China interveio na negociação de compra da empresa chinesa, Manus IA, pela Meta, empresa estadunidense.
A deliberação do Escritório de Mecanismo de Trabalho para Revisão e Segurança de Investimentos Estrangeiros proibiu a aquisição da empresa chinesa, cujo valor de negociação estava estimado em US$2 bilhões. A Meta havia anunciado em dezembro do ano passado (2025) que as partes tinham chegado a um acordo. A Manus IA é uma startup chinesa focada em agentes de inteligência artificial autônoma, considerados a próxima fronteira para expansão do escopo de serviços e de atividades para os grandes modelos. Um agente de IA autônomo é um sistema de software treinado para perceber seu ambiente, raciocinar e tomar decisões para atingir objetivos específicos sem supervisão humana contínua.
O bloqueio é mais um episódio de uma história recorrente entre as duas potências. Desde que as primeiras empresas chinesas dos setores de tecnologia da informação e de telecomunicações expandiram suas atividades pelo mundo, os EUA buscaram, sistematicamente, frear estas iniciativas. Episódios marcantes podem ser observados no caso de espionagem do correio eletrônico dos líderes da gigante chinesa, Huawei, pela Agência de Segurança Nacional (NSA) desde 2009, descoberto pelo público com os vazamentos de Edward Snowden. Em 2012, a empresa foi investigada pelo Congresso norte-americano, junto com a empresa ZTE, tendo sido considerada uma ameaça à segurança nacional dos EUA.
Outros episódios ocorreram com as empresas Alibaba e Tencent. Em abril de 2017, a Alibaba teve sua proposta de US$1,2 bilhões para aquisição da empresa americana MoneyGram recusada. Em dezembro de 2017, o Comitê de Investimento Estrangeiro dos EUA (CIE), administrado pelo Departamento do Tesouro dos EUA, julgou a decisão correta, com base em preocupações sobre a segurança nacional dos EUA. Alguns anos mais tarde, em 2020, durante a primeira administração Trump, foi a vez da Tencent ser também alvo do escrutínio da CIE, tendo sua proposta de aquisição da empresa estadunidense, Epic Games, vetada.
Ao que tudo indica, estes episódios são sintomas da crescente rivalidade entre as duas nações pelo domínio da fronteira da tecnologia e do conhecimento, e, portanto, deverão seguir ocorrendo com o passar dos anos.
ESTADOS UNIDOS
Trump retira tropas da Alemanha e racha com aliados da Otan

Foto: Jonathan Ernst /Reuters
O Pentágono anunciou na sexta-feira (1º) a retirada de 5.000 soldados americanos da Alemanha no prazo de até doze meses — decisão que expõe, com uma clareza incômoda, até onde Trump está disposto a ir para punir aliados que ousem discordar dele. A ordem partiu do secretário de Defesa Pete Hegseth e reverte compromissos da era Biden: cancela o envio de um batalhão com mísseis convencionais de longo alcance à Alemanha, anunciado conjuntamente pelas duas capitais na Cúpula da Otan de 2024. Os militares retirados devem ser redirecionados ao Hemisfério Ocidental e ao Indo-Pacífico.
O estopim foi uma declaração do chanceler Friedrich Merz, que afirmou que os EUA não possuem uma estratégia convincente para encerrar o conflito com o Irã e que o país estaria sendo humilhado pela liderança iraniana. Trump respondeu no Truth Social, acusando Merz de não saber do que fala. O porta-voz do Pentágono, Sean Parnell, afirmou em comunicado que a decisão decorre de "uma análise minuciosa da presença militar" americana na Europa — linguagem burocrática para o que um alto funcionário deixou mais explícito, em anonimato: a retórica alemã foi "inapropriada", e o presidente "está reagindo corretamente a essas declarações contraproducentes.
A tensão não se restringe à Alemanha. Trump afirmou considerar também a retirada de tropas da Itália e da Espanha — ambas resistiram a apoiar a operação militar americana no Irã. "A Itália não nos ajudou em nada, e a Espanha tem sido horrível, absolutamente horrível", disse o presidente. O padrão é o mesmo em todos os casos: discordância vira punição, e a Otan — fundada sobre o princípio da defesa coletiva — vê sua coesão ser corroída não por um adversário externo, mas pelo seu próprio membro mais poderoso. Décadas de arquitetura de segurança ocidental não resistem a um presidente que governa por impulso e ressentimento.
MUNDO
Tem quem queira o meu petróleo: EAU sai da OPEP

Imagem: OpenStreetMap
Mesmo com uma participação anterior à sua própria independência, os Emirados Árabes Unidos chocaram o mundo ao anunciar, de supetão, sua saída da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep). Essa notícia não veio com muitas justificativas de seu governo, mas faz sentido quando observada em uma perspectiva histórica uma vez que acumulou-se um desgaste com a Arábia Saudita, principal produtora e líder do bloco, vide os esforços para sufocar a produção dos Emirados, segunda maior reserva, para controlar os preços.
Essa notícia é celebrada em Washington, que vê o aumento do preço do barril provocado pela tensão com o Irã no estreito de Hormuz forçar um membro fundador da Opep a se render ao preço da demanda. Certamente, essa saída pode derrubar esse preço uma vez que a extração emiradense tenderá a subir, e serve como meio de aproximação de um novo aliado no Oriente Médio.
A região passa por várias tensões desde a “retomada de forças” que os EUA parecem ter tido no segundo mandato de Trump, tentando fazer valer a desgastada hegemonia americana. A busca de aliados para garantir segurança energética, seja aos moldes de Venezuela ou aos possíveis moldes de EAU, parece ser parte fundamental da nova onda de intervenções mundo afora.
Milei visita porta-aviões americano e reforça parceria com Washington

Imagem: Presidência da Argentina via AFP
O presidente da República Argentina Javier Milei visitou no dia 30 de abril de 2026 o porta-aviões americano USS Nimwitz, que participa de exercícios militares em conjunto aos hermanos. Segundo a pasta de defesa, a ação demonstra um esforço para a cooperação e interoperabilidade.
A Casa Rosada e a Casa Branca tracejam uma aproximação recente em temas de defesa e segurança. Notavelmente, a visita de Trump a Ushuaia trazia consigo ideias de construção de uma base naval integrada ao extremo sul do país, muito provavelmente para instalar vigilância do norte no estreito de Magalhães. Ainda, o esforço de aproximação com a América do Sul é notório dado que no mês passado vimos um tratado com o Paraguai permitindo a circulação de tropas americanas em seu solo.
Essas notícias fazem parte de uma retomada de esforços na afirmação da soberania americana, muito danificada pela ascensão da China e perda da capacidade industrial americana. Como não se permite a existência de nenhuma potência latino-americana por parte de Washington, essas atitudes podem não apenas serem vistas como uma maneira de projeção no continente mas, ao mesmo tempo, de sufocar qualquer atuação eventualmente dissonante das ordens de cima.
RECOMENDAÇÕES
Livro: Guerras híbridas - Das revoluções coloridas aos golpes (Andew Korybko) - A geopolítica contemporânea opera cada vez menos por confronto direto e cada vez mais por pressão, sanção e coerção seletiva. Este livro analisa como potências usam instrumentos não-militares para dobrar adversários.
Filme: Snowden (Oliver Stone, 2016) - Edward Snowden revelou que a NSA espionava líderes mundiais, cidadãos comuns e empresas estrangeiras. O filme de Oliver Stone reconstrói a trajetória de um homem que acreditou nas regras do seu país até perceber que elas nunca valeram para quem as escrevia.
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