NA EDIÇÃO DE HOJE
🇺🇸 Editorial — Washington prepara um tarifaço de 30% sobre produtos brasileiros. De acusações ao Pix até a pirataria na 25 de Março, analisamos a estratégia por trás da escolha — e o que esperamos do governo brasileiro em resposta.
🇧🇷 Brasil — O governo Lula recuou na criação de uma estatal de minerais críticos. Com a venda da Mina de Serra Verde para uma empresa americana, discutimos por que essa escolha pode custar caro ao país no longo prazo.
🇨🇳 China — O fechamento do Estreito de Ormuz acelerou uma corrida global por energia renovável. Mostramos por que a China já está à frente — e por que os outros países estão apenas começando a perceber isso.
🌍 Mundo — Vilarejos libaneses sumiram do Apple Maps justamente nas regiões bombardeadas por Israel. Coincidência ou apagamento deliberado? Discutimos o que está por trás dos mapas que escolhemos mostrar — e dos que escolhemos esconder.
EDITORIAL
Novo tarifaço ameaça economia brasileira

BRENDAN SMIALOWSKI/AFP via Getty Images/AFP
🇺🇸Washington prepara um novo golpe tarifário contra o 🇧🇷Brasil. Segundo fontes que acompanham as discussões no USTR, a alíquota deve ficar em torno de 30% sobre produtos brasileiros — com isenções estratégicas para o que interessa ao consumidor americano, como café, carne e suco de laranja. O anúncio formal pode vir antes de julho.
A lista de acusações é ampla e, em parte, oportunista. Estão lá falhas na proteção da propriedade intelectual, o etanol com tarifa de 18% para o produto americano e a pirataria na 25 de Março. O USTR publicou um post nas redes sociais afirmando que metade da madeira exportada pelo Brasil seria ilegal.
Não há ingenuidade possível aqui. A Seção 301, mecanismo legal utilizado desta vez, serve precisamente para punir o que Washington classifica como práticas "injustas e discriminatórias" — uma categoria elástica o suficiente para caber quase tudo. O Pix, por exemplo, é acusado de violar a livre concorrência por ser uma plataforma do Banco Central que "prejudica" os sistemas de transferência americanos. Ou seja: uma infraestrutura financeira pública, bem-sucedida e de acesso universal, vira pretexto para retaliação comercial.

Foto: Ricardo Stuckert/PR
O que se exige do Brasil a partir de agora? Se Washington quer taxar produtos brasileiros, que o faça — mas que encontre pela frente um governo disposto a reagir à altura. O Brasil exporta o que os Estados Unidos precisam: minério, proteína, energia, alimentos. Não faz sentido aceitar passivamente tarifas punitivas enquanto nossas commodities essenciais seguem cruzando fronteiras a serviço da economia americana.
BRASIL
Em defesa da Terrabras

Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil
O governo Lula brecou a Terrabras e, ao mesmo tempo, deseja passar a imagem de um governo que entende a importância dos minerais críticos. Em vez de bancar o enfrentamento em nome da possível estatal - contrariando inclusive uma ala do PT -, refugou. O problema é que, nesse caso, recuar já é uma escolha - e não necessariamente boa.
A venda da Serra Verde, em Goiás - hoje a única mina de terras-raras em operação no Brasil - para a americana 🇺🇸USA Rare Earth, por US$2,8 bilhões -, mostrou de forma cristalina que a disputa por minerais críticos já chegou aqui com força. Quando um ativo desse porte muda de mãos em meio à corrida global por insumos essenciais para defesa, eletrônicos e transição energética, o debate, para além de econômico, assume contornos claramente geopolíticos. Ao mesmo tempo, ao acionar a PGR contra a operação e contra a conduta de Ronaldo Caiado, o PSOL deixou claro que a venda da Serra Verde não é só um negócio, expondo, também, uma disputa institucional e política sobre soberania, papel da União e controle de recursos estratégicos.
O governo rejeitou apoio às propostas dos deputados federais Pedro Uczai (PT-SC) e Rodrigo Rollemberg (PSB-DF), que previam a criação de uma estatal, em detrimento da proposta de Arnaldo Jardim (Cidadania-SP), que aposta em um marco regulatório sem participação produtiva direta do Estado, priorizando incentivos, diretrizes de governança e maior protagonismo do setor privado na exploração dos minerais críticos.

Foto: Marina Ramos / Câmara dos Deputados; Relator do projeto de lei atribui à falta de consenso no governo a demora para a conclusão do seu parecer sobre a proposta.
Porém, no cenário atual, a importância de uma estatal está em impedir que o Brasil siga restrito ao papel de fornecedor de minério bruto em uma cadeia controlada por outros. Minerais críticos estão na defesa, nos eletrônicos, na transição energética e na tecnologia de ponta. Uma empresa pública faria sentido como instrumento de planejamento, investimento e coordenação, articulando extração, refino, pesquisa e indústria sob uma lógica nacional. Isso ganha ainda mais densidade quando se lembra que a Constituição trata os recursos minerais, inclusive os do subsolo, como bens da União. Sem algo dessa natureza, o país corre o risco de sair apenas com royalties, enquanto o valor agregado, a tecnologia e o poder estratégico seguem nas potências.
CHINA
China dobrará a aposta nas energias renováveis

Estreito de Ormuz indicado no mapa do Google Maps.
Faz mais de um mês desde o início do atual conflito no Sudoeste Asiático. O fechamento do Estreito de Ormuz, pelo 🇮🇷Irã, expôs e agravou as vulnerabilidades dos países que dependem da região para o fornecimento de matérias primas essenciais. Diversas commodities e componentes essenciais de muitas cadeias produtivas viram seus preços dispararem como consequência. Para se ter ideia, passavam por Ormuz: 20% das exportações mundiais de fertilizantes; 50% de enxofre; 33% do metano; 30% do hélio; 10% do alumínio primário; e 20% do petróleo mundial.
Decerto, inúmeros países estão revendo sua capacidade de geração de energia por fontes não-poluentes, de forma a contornar possíveis choques futuros de oferta por questões de ordem geopolítica. A 🇨🇳China, diante desse contexto, não apenas dobrará a aposta nas energias renováveis, como também já está em posição para colher os frutos das decisões dos outros países, dominando as cadeias produtivas dos setores renováveis.
Em 2025, no que diz respeito às fontes de energia solar e eólica, a China foi responsável por aproximadamente 30% de todos os projetos planejados (ou seja, todos os projetos anunciados, em fase de prospecção, em fase preparatória ou em fase inicial de construção) e por 75% de todos os projetos em construção no mundo. No setor eólico, a China representa, atualmente, cerca de 64% de todo valor gerado através da cadeia global de valor do setor, da mineração ao transporte e à instalação de turbinas. Como se sabe, 4 das 5 maiores empresas do setor já são chinesas.
No setor fotovoltaico, a dominância é ainda mais chocante. Em 2023, por exemplo, a China representava: (1) 92% da produção global de polysilicone; (2) 98% da produção global de wafers fotovoltaicos; (3) 91,8% da produção global de células fotovoltaicas; e (4) 84,6% da produção global de módulos fotovoltaicos.
Em resumo, a China produz aproximadamente 80% de todos os principais componentes da cadeia produtiva dos painéis fotovoltaicos, além de ter 30% da capacidade instalada mundial e ser o maior exportador de painéis do mundo, com custos extremamente competitivos que alcançam menos de US$0,24/W.

Turbinas eólicas e fazenda solar na província de Shandong, na China. Foto: Ng Han Guan/AP
MUNDO
Vilas libanesas? Nunca ouvimos falar

Euronews: Copyright Source - Apple Maps
Repercute na internet acusações à Apple por ter excluído do Apple Maps alguns nomes de vilarejos no 🇱🇧Líbano, na região onde ocorreu a escalada militar entre 🇮🇱Israel e Hezbollah. Os representantes da empresa disseram que esses vilarejos nunca estiveram em sua base de dados original.
Esse tipo de manipulação já aconteceu no passado, quando a pedido de Washington (ou seja, extensão dos interesses de Tel Aviv) o Google Maps propositalmente desativou parte de seu serviço de mapas para dar confidencialidade às movimentações militares de Israel. Assim, o ocorrido mais parece que a empresa apoia-se em falhas de seu serviço para justificar interesses de seu governo.
Excluir os nomes dos vilarejos é simbólico pois desumaniza as zonas onde a ação bélica ocorre, pois faz parecer a quem é alienígena à região que são apenas pequenos, desinteressantes conglomerados e não uma comunidade histórica. Apesar de veículos de imprensa se apoiarem na dificuldade do serviço prestado e por não existirem evidências claras, como prints que mostram vilas pequenas no Líbano, dessa exclusão é difícil ver como um erro cartográfico tão coincidente com a atuação de Israel como tal pode ocorrer. Especialmente para uma empresa com parceria com uma rede de satélites.
RECOMENDAÇÕES
Livro: O Novo Mapa (Daniel Yergin) - Ganhador do prêmio Pulitzer com um livro sobre petróleo, Yergin volta a abordar um tema crucial para o futuro do planeta. Nesta obra, ele analisa os acontecimentos das últimas décadas no que diz respeito à área de energia, falando dos novos desenvolvimentos tecnológicos, entre eles a produção em grande escala de xisto, a ascensão das energias renováveis, como a eólica e a solar, e a eletrificação da frota automobilística.
Filme: Bacurau (Kleber Mendonça Filho) - Bacurau se tornou um dos filmes brasileiros mais discutidos da última década — dentro e fora do país. Ambientado em um futuro próximo no sertão nordestino, acompanha uma comunidade que descobre ter desaparecido dos mapas digitais. O que começa como um mistério se transforma em um thriller político sobre identidade, resistência e soberania territorial.
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